Os melhores aplicativos de streaming

O Napoleão de Ridley Scott: Uma Jornada Íntima e Humana Além dos Campos de Batalha

NAPOLEÃO NÃO É UM ÉPICO DE GUERRA

Dirigido por Ridley Scott, o filme apresenta uma visão original e pessoal sobre as origens de Napoleão Bonaparte (Joaquin Phoenix) e sua rápida e implacável ascensão ao poder como imperador, vista através do prisma de seu relacionamento visceral e muitas vezes volátil com sua esposa e verdadeiro amor, Josephine (Vanessa Kirby). Foi no calor da batalha que a mente talentosa de Napoleão como estrategista militar brilhou mais, enquanto ele também lutava outra guerra: uma cruzada romântica com sua esposa adúltera.

Emergindo do nada, como um oficial de artilharia do exército francês, o filme retrata sua jornada até ser derrotado e exilado na ilha de Santa Helena. Conquistando o mundo para tentar conquistar o amor dela, suas táticas lhe renderam uma forte reputação e foi necessário sete coalizões de diferentes potências para derrotá-lo. No entanto, quando não consegue conquistar seu amor, ele tenta destruí-la – e se destrói no processo.

Na cultura popular, o Complexo de Napoleão é a denominação de um suposto transtorno psicológico de inferioridade que afetaria pessoas de baixa estatura. A expressão também é usada para descrever indivíduos que tentam compensar certas limitações pessoais, transferindo suas motivações para outros aspectos da vida, superando adversidades que poderiam se tornar estigmas.

Frequentemente descrito como um homem de baixa estatura, Napoleão Bonaparte, famoso estadista francês do século XVIII, não viveu o suficiente para conhecer o conceito que leva seu nome, mas em vida já demonstrava uma grande vontade de marcar seu título na história da humanidade – motivado ou não pelo complexo mencionado.

Assim, três séculos depois, o diretor Ridley Scott decidiu reviver a herança de Bonaparte nas telonas de uma maneira original, contando em “Napoleão” com a ajuda de Joaquin Phoenix no papel principal e Vanessa Kirby como coadjuvante, com uma trama que desconstrói um pouco do legado de um dos estrategistas mais famosos da história.

O NAPOLEÃO DE JOAQUIN PHOENIX

Se nos parágrafos anteriores parece que a relação de Napoleão e Josephine era especialmente unilateral, informo que as coisas não eram exatamente assim. O personagem de Phoenix, inegavelmente, também não era um bom companheiro para a esposa, impondo muitas vezes sua vontade sobre a dela.

Mais uma vez, Joaquin se destaca sob os opressivos holofotes de Hollywood. Com uma atuação que mistura psicologia e fisicalidade, nos primeiros minutos do filme, vemos os maneirismos físicos do astro interpretando Napoleão como se fosse um menino reprimido, numa espécie de Bonaparte emocionalmente atrofiado que seria um prato cheio para Sigmund Freud, famoso psicanalista austríaco.

Através de uma imaturidade que acaba sendo impossível não comparar com Arthur Fleck, personagem de Phoenix em “Coringa”, algumas sequências reforçam os lapsos de infantilidade da mente do gênio estrategista, que com tamanha ingenuidade toma atitudes inesperadas pelos espectadores – como quando confronta os ingleses com a pueril linha: “Você se acha tão bom por possuir barcos!”.

Além das Batalhas: Uma Perspectiva Alternativa das Conquistas de Napoleão no Cinema"

É importante salientar para aqueles em busca de um épico repleto de grandes batalhas e mortes memoráveis, que este filme pode não atender a tais expectativas. Com uma duração de duas horas e meia, o filme flui rapidamente, levando Napoleão aos conhecidos confrontos militares. No entanto, opta-se aqui por uma abordagem que privilegia o aspecto visualmente estético, enfatizando o lado dramático e poético desses duelos mais do que o aspecto bélico em si.

A paixão de Ridley Scott pela excelência fotográfica é evidente, resultando em cenas que demonstram habilidade técnica ao realçar paisagens deslumbrantes, ferimentos causados por balas de canhão de maneira crua e realista, e afogamentos em rios congelados que se tingem de vermelho sangue.

Além disso, embora as batalhas possam não parecer tão envolventes, o filme mantém, em vários momentos, um registro histórico dos danos causados pelas campanhas de Napoleão. Desta forma, mesmo indiretamente, reforça-se o assustador legado estatístico deixado por Bonaparte como figura militar.

A Perspectiva de Ridley Scott sobre Napoleão

Conforme aponta David Chanteranne, autor do livro “Napoleão. Sua Vida, Suas Batalhas e Seu Império”, mais de 700 filmes sobre o imperador francês foram produzidos desde a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière. Napoleão Bonaparte, figura controversa e de grande influência na Europa, inspirou incontáveis narrativas de coragem, destacando-se como um estrategista exímio em batalhas.

Quando Ridley Scott decidiu retratar sua visão sobre o famoso estadista, ele e sua equipe anteciparam que o filme seria uma exploração da percepção do diretor acerca da história. A versão de Napoleão por Scott explora um aspecto mais pessoal da lenda, aventurando-se em territórios que misturam realidade e interpretação – um mergulho guiado pelo ego de um homem em conflito com uma relação edípica não resolvida, buscando na figura da esposa a presença materna.

A narrativa, embora extensa, desenvolve-se de maneira ágil. No entanto, a obra apresenta uma montagem que por vezes pode parecer caótica, gerando potencial confusão entre espectadores menos familiarizados com os eventos históricos que fundamentam a trama.

Portanto, ao somar todos os elementos apresentados, a experiência de “Napoleão” sob a direção de Ridley Scott pode não satisfazer completamente aqueles que procuram o general em todo o seu esplendor tradicional. Contudo, a obra merece reconhecimento e recomendação, especialmente por representar uma abordagem audaciosa de um cineasta que arriscou muito em sua realização.